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Não nascemos odiando nossos corpos!

  • 5 de jun. de 2024
  • 3 min de leitura
Recentemente, ao assistir um vídeo de uma menina de aproximadamente 10 anos se olhando no espelho e avaliando sua gordura abdominal, fiquei profundamente reflexiva sobre a pressão estética e suas proporções.
 
Não é possível inferir exatamente sobre o que se passava na cabeça daquela criança, mas a cena, ao mesmo tempo tocante e preocupante, me fez pensar sobre muitas camadas, e principalmente sobre como as crianças são, de fato, vítimas da pressão estética imposta pela mídia e pelos meios sociais em que vivem.
 
Penso sobre a insatisfação corporal e seu papel crucial no desenvolvimento dos transtornos alimentares. E, infelizmente, as nossas crianças também podem ser afetadas.
 
E aqui eu quero frisar que nós não nascemos odiando nossos corpos. Uma criança não nasce sabendo que existem corpos certos e errados e o porque está adequada ou inadequada. Essa insatisfação é uma construção social, ensinada e perpetuada pelos padrões estéticos, a ditadura da beleza.

Nos atendimentos, a maioria das mulheres que atendo relatam que a insatisfação corporal ou a práticas de dietas e preocupação com o corpo teve início na infância ou adolescência.
 
Desde cedo, somos expostos a falsa noção de que o corpo é infinitamente maleável e que esse ideal estético que é propagado pode ser atingido por qualquer um que siga “as regras”.
 
Regras pautadas na celebração de práticas restritivas, exercícios a qualquer custo, discursos rasos sobre força de vontade e tudo isso vendido como saudável, mas que acabam por transformar o corpo em réu, carrasco e vítima. Ele é réu na medida em que suas imperfeições o afastam da vida social; é carrasco, pois impõe práticas rígidas para reformá-lo e adequá-lo; e vítima, na medida em que sofre as consequências dessas mesmas praticas.
 
Negam-se as particularidades do corpo de cada um e as limitações impostas pela biologia e pela genética.
 
O impacto disso é devastador. Considerando a diversidade de tamanhos e individualidade, sempre que um único padrão de beleza for eleito e aceito, seja ele magro, musculoso ou gordo, existirão pessoas marginalizadas.
 
E aqui eu quero também fazer um recorte de gênero porque é essencial para entender a profundidade desse problema. Nós mulheres, desde que nascemos, somos mais vulneráveis ao mito da beleza feminina. A sociedade impõe uma luta constante para que nossos corpos não se degenerem. É como se já nascêssemos lutando para não ter marcas de “feiur@s”.
 
Essa exigência é tão cruel e desumana de diversas formas, dentre elas por negar a diversidade natural dos corpos e perpetuar a ideia de que o valor de uma mulher está diretamente relacionado à sua aparência física. Nos vendem a ideia de que vale a pena o sacrifício por tais resultados, em troca da maior sensação de poder e felicidade. E essa busca nunca tem fim.
 
Meninas jovens, como a do vídeo, estão crescendo em um mundo onde a imagem corporal é constantemente julgada e onde a perfeição estética é vista como um ideal a ser alcançado a qualquer custo.
 
Todo esse estereótipo é muito problemático e sonho com uma sociedade em que nossas crianças crescem entendendo sobre diversidade e livres para serem quem são. Será que é sonhar demais? Podemos sim construir um ambiente melhor desde a infância. Seja evitando comentários negativos sobre seus próprios corpos ou sobre os corpos dos outros na frente das crianças,  monitorando o tipo de mídia que as crianças consomem e escolher programas, filmes e livros que mostrem a diversidade dos corpos de maneira positiva, que apresentam personagens diversos em termos de aparência, raça, tamanho e habilidades o que ajuda as crianças a verem a diversidade como algo natural e positivo e muitas outras ações podem favorecer a autoestima e minimizar os impactos da pressão estética.
 
E prestes a finalizar esse texto, quero trazer essa reflexão aqui com uma frase da Naomi Wolf:
 
⁠"A verdadeira questão não tem a ver com o fato de nós mulheres usarmos maquiagem ou não, ganharmos peso ou não, nos submetermos a cirurgias ou evitarmos, nos trajarmos com esmero ou não, transformamos nosso corpo, nosso rosto e nossas roupas em obras de arte ou ignorarmos totalmente os enfeites. O verdadeiro problema é nossa falta de opção."
 
Eu preciso frisar que o intuito dessa postagem não é dizer que seja errado querer emagrecer. Jamais. Inclusive hoje mesmo em consulta com uma paciente estávamos fazendo ajustes no seu plano alimentar pautado em uma restrição calórica. Porque é um desejo genuíno dela querer emagrecer e alcançar o objetivo que ela tem, mas alinhamos expectativas e é deixado bem claro que não vamos passar por cima do seu bem estar e que é preciso honrar os limites do corpo e da fase atual que ela está vivendo. Mas, sem jamais deslegitimar seu desejo.

Mas, é interessante sempre analisar se a busca por esse desejo te faz se sentir enjaulada, sem autonomia e tem custado a sua saúde, tanto física quanto mental. Porque sem autonomia não há liberdade. Se deixou de ser saudável, custa caro demais.


 
 
 

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