Como assim as dietas não funcionam?
- 5 de set. de 2022
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Lembrando que ao me referir ao termo dieta aqui estou me referindo a restrições e à rigidez ao comer, geralmente com o objetivo do controlar/alterar o peso corporal.
Deve ser meio confuso para você escutar “dietas não funcionam”, porque parece que todo mundo faz e você pode pensar em alguma dieta que tenha feito e que te levou a perder peso e achar que funcionou, mesmo tendo recuperado o peso perdido.
Deixa eu te explicar.
Quando dizemos que as dietas não funcionam, estamos nos referindo a resultados de médio e longo prazo. Isso porque a curto prazo, devido ao período de restrição, elas vão sim dar “resultados”, as pessoas em geral tem uma perda de peso inicial significativa.
Mas, o grande ponto em questão é que como são medidas mais radicais e restrições que não levam em consideração o caráter social, afetivo, cultural, prazeroso e demais peculiaridades da alimentação, esse padrão alimentar restritivo não é sustentável e as pessoas geralmente voltam ao padrão anterior ou até pior por envolver uma relação mais conturbada com a comida, com períodos de maior exagero, ansiedade e culpa ao comer, sentimento de fracasso e baixa autoestima.
Esse sentimento de fracasso e de atribuição da culpa por não conseguir seguir a dieta faz as pessoas a terem a necessidade de fazer novas tentativas na esperança de fazer melhor e conseguir se controlar com a comida. Mas, quanto mais tentam se controlar, mais perdem o controle e cometem exageros e fazem mais uma promessa de fazer diferente no dia seguinte. E acabam vivendo o ciclo de perda e ganho de peso, o chamado efeito sanfona.
Então, o fato de perder peso no inicio, não é indicativo que a dieta funcionou, já que você não conseguiu manter aquele padrão e, muitas vezes, ganha até mais peso depois que desiste da dieta. Mas, não se sinta um fracasso por isso.
A culpa do insucesso das dietas não é sua. E vou te explicar o por quê.
A maioria dos estudos científicos que evidenciam os efeitos positivos das dietas são estudos de intervenções de curto prazo (em torno de 6 meses). Mas, e depois dos 6 meses?
Estudos científicos já evidenciam que cerca de 95% das pessoas que fazem dieta recuperam o peso perdido ou até ganham mais peso, porque o efeito sanfona é uma consequência da restrição alimentar autoimposta.
No ensaio clínico randomizado de Sacks et al. (2009), para analisar o efeito de dietas com diferentes proporções de carboidratos, gordura e proteína, constatou-se que em 6 meses os indivíduos perderam 7% do peso inicial. Porém aos 12 meses, todos os indivíduos começaram a recuperar o peso perdido.
Uma revisão de Mann et. al. (2007), para avaliar a qualidade das evidências científicas quanto a eficiência das dietas na perda de peso sustentável a longo prazo, concluiu que a perda de peso não se sustenta a longo prazo. Sendo que após 1 a 2 anos, os indivíduos cursam com ganho de peso que supera o que foi perdido na dieta.
Esse efeito sanfona tem sido relacionado a um efeito adaptativo do nosso organismo na tentativa de defender e proteger nosso corpo da redução de energia. A perda de peso de forma rápida se dá pela perda de massa muscular e água, não apenas de gordura, isso resulta em alterações no metabolismo como diminuição do gasto energético, aumento da eficácia calórica (ou seja, seu corpo se otimiza para sobreviver a restrição e com isso melhora o armazenamento de energia, principalmente na forma de gordura quando você volta ao consumo energético normal, o que leva ao reganho de peso, principalmente de gordura), distúrbios neuroendócrinos e desenvolvimento de episódios de descontrole alimentar.
O descontrole está associado ao efeitos psicológicos das dietas, visto que a restrição e proibição de alimentos estão associadas à obsessão pelos alimentos proibidos, aumento no consumo e até quadros de compulsão alimentar. Além do mais, dietas são fortes gatilhos para o desenvolvimento de transtornos alimentares, como anorexia nervosa e a bulimia.
Não conseguimos sustentar a posição de controle por muito tempo e em algum momento acabamos perdendo o controle e sucumbindo aos desejos e, por vezes, de forma exagerada.
O ciclo das dietas é assim: Você começa a dieta restritiva, segue a meta no “foco força e fé”. No início você controla, emagrece, as pessoas começam a elogiar. Mas apesar de perder o peso você não está feliz, está irritada, cansada, passando vontades.
Seu cérebro começa a te dizer que não é daquele jeito, que ele não está feliz. E você acaba tendo desejos pelos alimentos proibidos. Pensamentos do tipo “hoje eu mereço”, vai comer um e acaba comendo tudo. E depois desse exagero vem a culpa. O pensamento de que você fez tudo errado e já que você fez tudo errado você acaba dizendo que vai fazer uma despedida e acaba comendo mais e volta todo aquele ciclo.
Em uns momentos você desiste do controle, o peso retorna, mas volta também a frustração, a baixa autoestima e você não é mais a mesma pessoa porque você tem mais fome, mais vontade de comer e pensa que a culpa é sua e não do controle rígido.
Em resumo, as dietas não funcionam porque não são sustentáveis a longo prazo e podem resultar em ganho de peso.
Vocês perceberam um paradoxo ai?
Por isso, a minha dica é que você busque medidas que sejam realistas e que possa manter. Se as dietas são o problema, elas não podem ser a solução. #ficaadica
Com gentileza,
Juliana Ferreira
Nutricionista comportamental
CRN-5 10233
Referências:
BERNARDI, F.; CICHELERO, C.; VITOLO, M.R. Comportamento de restrição e obesidade. Rev. Nutr., v.18, n.1, p. 85-93. 2005.
DERAM, S. O peso das dietas. Rio de Janeiro: Sextante, 2018.
MANN, T. et al. Medicare's Search for Effective Obesity Treatments: Diets Are Not the Answer. American Psycholohist, v 62, n 3, 2007.
PETRY, N; BRAGUNCI, L. Em paz com a comida. 2 d. Belo Horizonte: IACI editora, 2018.
SACKS et al. Comparison of weight-loss diets wih different compositions of fat, protein and carbohydrates. New England Journal of Medicine, v.360, n. 9, 2009.



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